Janeiro de 2002, Almirante Tamandaré.
Quatro homens desembarcaram de uma viatura. Três deles estavam fardados, eu era um deles. Recém-formado policial militar, saia às ruas pela primeira vez para uma “missão especial”.
O quarto homem a descer da viatura nem parecia um homem, tal a sua franzidez corporal. E pela lei, não era. Dezessete anos, nove homicídios. O resto de sua ficha, recheada, também lhe garantia status o suficiente para ser respeitado entre os marginais de qualquer cela.
A sociedade usa a expressão “marginal” para designar aqueles que conduzem suas vidas à margem da lei. Nós os chamamos de “missão especial”.
Mundos opostos, jamais saberei seus motivos. Seria sua índole, algo escrito em seu DNA? Intrínseco em sua alma? Ou apenas mais uma vítima da sociedade, incapaz se conviver harmoniosamente com as centenas de “nãos” que uma vida humilde impõe?
Não me cabe julgar.
A dupla de policiais ao meu lado sorriu. O rapaz não. Aqueles eram dias estranhos em Tamandaré, coisas erradas aconteciam todo o tempo. Eles queriam lágrimas, súplicas. Ele não as deu. Não consegui odiá-lo por isso. Nem a eles.
Só a mim mesmo.
Cansados da brincadeira e indignados com a minha falta de senso de humor, me incumbiram de terminar a tarefa da qual não havia, em momento algum, tomado parte.
Afinal de contas, se aquilo era uma iniciação, eu não deveria me divertir.
Sem pensar, mirei nos olhos do rapaz. Mas não atirei.
Não ainda. Não com pressa. Continue lendo ‘Julgue você mesmo’


